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10 de Março de 2014

PDL-LIS

apesar do retrato pessoal, o assunto é de carácter universal. como o próprio escreve: a que sabe voltar à casa que julgamos querer abandonar de vez? PDL-LIS é um documentário de Diogo Lima, produzido em terras onde o verde é rei e a terra está mais perto do céu. com a data de lançamento na internet marcada para dia 21 do corrente mês, dois anos depois de estar concluído, o filme mostrar-se-á agora ao mundo inteiro de uma só vez.


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São Miguel é o cenário de fundo desta viagem ao centro de alguém. um regresso que é surpresa, uma paragem pelos lugares que agora são vistos com olhos de quem partiu, uma busca pessoal contada na primeira pessoa. confiamos no Diogo, porque o Diogo confia-nos o coração. a generosidade da partilha é aquilo que aqui é entusiasmante: somos recebidos de braços abertos numa casa que por breves instantes é nossa também, guiados por alguém que mostra não ter medo de ser e perceber quem é. o Ponta Delgada até Lisboa expõe a intimidade daquilo que não dá para contar, e é a tão desejada distância que lhe traz a curiosidade do regresso: fará o tempo nascer encanto? ou terá Lisboa feito esquecer? a autenticidade merece o olhar atento.

5 de Fevereiro de 2014

dura praxis, sed praxis

quando o próximo verão chegar, fará dois anos que deixei de frequentar a faculdade de todos os alvoroços. depois do caso Miguel Relvas, a Lusófona lembra agora, de forma trágica, a existência da praxe a um país com tendência para adormecer. uma realidade que não pertence apenas a um dos lados do Campo Grande, ou sequer existe somente na capital portuguesa. um ritual que é tradição por também não ter conhecido o seu início há dois meses atrás. todas as especulações, reportagens e debates, que ultimamente têm tomado conta da ordem de todos os dias, muito possivelmente darão em coisa nenhuma, e o universo autoritário de hierarquias feitas de alunos continuará a ter espaço dentro daquilo que é o ensino superior.

em vinte e dois anos de vida e um percurso académico que até à data terminou na licenciatura, não colaborei, me associei, aplaudi ou exerci qualquer tipo de praxe, se é que ela tem tipos. umas vezes por escolha pessoal, outras por escolha do próprio percurso. a morte como consequência de praxe não é novidade, e mesmo dizendo ser excessivo afirmar que a praxe pode matar, a verdade é que diversas situações nunca teriam visto a luz do dia se não existisse esta cultura de submissão como forma de aceitação, pertença e integração. atrás do que correu mal, está o que não deveria nunca existir. para lá dos casos violentos, está a forma desassociada com que se trata o outro que deixa de ser igual a nós e passa a ser alguém inferior que acata ordens. à parte de todas as boas intenções que se lhe queira incluir, e independentemente das acções que ela implica, a praxe será sempre um abuso de autoridade mentirosa. mas terminar com a praxe, e toda e qualquer praxe deve conhecer agora o seu fim, não significa proibi-la por lei. essa iniciativa deve partir dos próprios alunos e estabelecimentos de ensino superior, uma alternativa que a todos inclua de forma igual. proibi-la por lei é uma porta aberta a um regime autoritário que censura manifestações. tal como a praxe é um convite à obediência cega. não é exagero, é análogo.

12 de Janeiro de 2014

Franz Falckenhaus

o meu mais recente amor vem da Cracóvia. é com o nome Franz Falckenhaus que o polaco Tomek Dakiniewicz assina as suas obras artísticas. chegou ao mundo em 1975 para se licenciar em Informação e Tecnologia, mas este autodidacta do mundo da colagem, apaixonado por fotografia e vídeo, é já uma estrela em ascensão da reinterpretação do existente e um príncipe digno de cavalo branco do meu coração.


o portfólio de Franz divide-se entre a colagem digital e analógica, e apesar de não ser segredo que o meu interesse pelo corta e cola está no trabalho manual, foi por entre as composições deste polaco, feitas a computador, que descobri a oportunidade escondida das transparências e das formas que se misturam. a selecção do arquivo por trás das interpretações de Franz guardam o segredo daquilo que aqui é atraente: ilustrações antigas confundem-se com fotografias de outros tempos, trabalhadas sobre diferentes tipos de materiais. e é na estética muito particular destas composições cuidadas que a noção de perspectiva é frequentemente explorada, destruindo enquadramentos que por sua vez desfazem a ideia das duas dimensões dada pelo papel. a maior parte dos seus trabalhos tiram também proveito do uso da sombra, da criação de diferentes camadas de leitura na imagem e do desenho. as cores desgastadas remetem inevitavelmente para o antigo, mas sobretudo para o usado. um retrato impulsivo do inconsciente ao mesmo tempo que parece ser uma visão do mundo trabalhada para provocar, um conjunto de criações que primam pela audácia e merecem ser vistas por todos e a todos dadas a conhecer. o trabalho de Falckenhaus é um verdadeiro incentivo à reutilização do que já tem um significado incorporado.

9 de Janeiro de 2014

14 para 2014

algumas resoluções falhadas de velhos anos dizem-me que para nada basta só querer e que eu não sei mesmo o que é isto de se ter um blogue. acordei em 2014 com todas as maleitas do mundo no corpo e ainda não consegui descansar de nenhuma delas. surgem como uma espécie de mau presságio para o ano que ainda agora começou a ganhar forma. em contrapartida 2013 foi muito longo, um ano de muitos anos mas com final feliz, porque afinal a fuga não tem de ser apenas literatura. ou talvez seja a literatura que possa ser muito mais do que palavras que formam frases que contam estórias. 

pela primeira vez desde que me recordo, escrevi uma lista de catorze resoluções para cumprir durante os doze meses que temos pela frente. são catorze os afazeres que quero ter em conta, mas não só até o fogo de artifício anunciar uma outra vez a mudança de calendário. é uma pequena lista feita de vontades de uma vida, projectos chamados desejo e uma especial atenção à perseverança do amor. todos dependem unicamente da minha vontade que apenas dependerá do meu âmago. não fossem as maleitas do corpo, era capaz de jurar a pés juntos que os prognósticos têm a força de duas mãos dadas. poderia prometer descobertas e conquistas que nem um Vasco da Gama da blogosfera, mas já não há alma que se admire se, só depois de três novos meses de ausência, este espaço voltar a dar sinais de vida. frequentemente tento convencer-me de que está apenas mal morto, mas é com algum prazer que lhe vejo as primeiras rugas de expressão. aos leitores que ainda me restam, exploradores anónimos de páginas moribundas, um feliz ano novo.

4 de Novembro de 2013

da Rússia, com amor

algo de muito bizarro está a acontecer no mundo e na vez de títulos garrafais a provocar a conversa, o assunto tem sido resumido a artigos de opinião numa imprensa que se diz especializada, dirigindo assim o universal a um nicho de mercado de microscópica dimensão. sozinho, o mundo alberga o título de lugar onde tudo acontece. o nível do bizarro nasce na acção reacção ao tudo o que acontece. no último junho, o presidente russo Vladimir Putin promulgou a controversa lei que pune a propaganda de relações sexuais ditas não tradicionais perante menores. a resposta surgiu na voz do actor britânico Stephen Fry, em carta aberta dirigida ao primeiro-ministro David Cameron e ao Comité Olímpico Internacional, pedindo um boicote aos Jogos Olímpicos de Inverno do próximo ano, a acontecer na Rússia. numa escala mais pequena, Noel Kelly criou uma petição que conta já com quase duas mil assinaturas. o crítico de arte e curador irlandês pede à Manifesta, a única Bienal Europeia de Arte Contemporânea itinerante, que reconsidere os planos da sua décima edição e cancele São Petersburgo como cidade anfitriã para o próximo ano 2014.

sem pensar, aplaudi a decisão. é importante que os países que se auto-intitulam civilizados enviem uma mensagem de descontentamento ao governo russo pela posição demonstrada, que saiam em defesa dos direitos humanos. mas deverá ser mesmo esta a reacção da comunidade artística? não é a negação de acesso uma intolerância ao intolerante? capaz de provocar e educar mentalidades, não deveria o mundo da arte proceder de uma outra forma? não é segredo que a promoção da arte contemporânea, em certas regiões do planeta, é uma terra banhada por rios de dinheiro. e porque tudo o que tem uma cara, tem uma coroa, o negócio pode atropelar os direitos humanos e a arte ser utilizada como símbolo de falsa expansão. e onde é que se traça a linha divisória? em busca de consistência, não deveriam ser também boicotadas as diversas exibições e amostras de arte noutros territórios que criminalizam a comunidade LGBT? e nos países onde o papel da mulher é de servidão? países sem liberdade de expressão ou que condenam à tortura ou à morte? não creio que a intervenção passe pela criação de uma barreira, nunca foi ao silêncio que a arte se propôs. não será o silêncio uma arma que irá isolar países que não se regem pelo mesmo padrão moral que os demais? uma arma destrutiva quando comparada com a criação de pontes em diálogos culturais? não chego a conclusão alguma, mas acho importante que se levante estas questões que deveriam fazer correr mais tinta na imprensa nacional e internacional. não sei se me assusta mais a proibição de direitos civis a comunidades inteiras, se o isolamento como escolha exterior.